Segunda-feira, 29 de Maio de 2006

Dar é ser...

O fruto é cego. É a árvore que vê. A árvore sabe que o fruto vai nascer. Todos os anos a árvore carrega os frutos até que caiam, até que alguém os vá arrancar. E sem os seus filhos, a árvore prepara-se para dar mais filhos no ano seguinte. A árvore cresce na solidão. Fala com a terra, mas ninguém ouve. Conversa com os pássaros, mas só eles entendem. Discute com as outras árvores, mas quase nem se percebe, apenas o som tranquilo a que chamamos vento.
A árvore já é árvore ainda antes de nascer. Sabe que vai ser grande, que vai passar a altura dos telhados, que vai assistir à partida daqueles que mais se ama, à chegada de outros, cujo regresso era impensável. A árvore cresce no silêncio, com ajuda do sol, às vezes fustigada pelo frio, às vezes maltratada pelo homem. E aguenta tudo. Isto é, se não quiser morrer. Porque as árvores são como as pessoas: se elas quiserem morrer, nada as prenderá a este mundo. Mesmo que as raízes nunca sejam arrancadas, a árvore escolhe outra existência, parte-se, parte e desiste, como nós.
O fruto é cego. Nasce pequeno, frágil, torto. Depois arredonda, cresce, convence-se que é gente, pendura-se no tempo, dança com o vento, pensa que vai ser feliz, brinca com o sol. E um dia cai. Fica a árvore, fica o medo, fica a noção incontornável da mudança, da insegurança, de tudo o que é hoje verdade, amanhã desapareceu.
Mas o fruto não sofre, porque não vê e como não vê, não sabe nada. A árvore assiste. Tranquila, porque conhece o universo e as suas regras. E sabe que a primeira regra é que as regras mudam. E muda o tempo. E muda o modo. E muda o mundo. A árvore assiste a tudo, serena, como uma sábia, como uma velha índia, como uma avó. A árvore esconde o mundo no tronco e dá comida nos ramos. A árvore sabe que quanto mais se dá mais se tem, que dar é a melhor forma de viver, que dar é ser. A árvore espera que o mundo melhore, sem esperar nada dos homens. E cala a dor, a tristeza, a solidão, a paixão nunca vivida de um abraço. E quando está cansada, aquece os homens e consome-se, gloriosa e bela, num festival sublime de fogo e cor. E dança para nós, perfeita nos seus derradeiros momentos.
A vida é bela enquanto nos consome. A vida é bela mesmo antes do nascimento. A vida é bela porque é cruel, porque é curta, porque é imprevisível. E a árvore sabe que faz parte da vida, que pode guiar os homens ou os frutos, por isso por isso não desiste, por isso fica.

 

 


publicado por coraxaodemanteiga às 19:33
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